ANÁLISE POLÍTICA
O peso do legado e o recado das urnas: Ronaldo Dimas transforma Araguaína, mas não consegue reconquistar espaço político
Após duas tentativas frustradas de conquistar cargos majoritários, ex-prefeito e seu filho Tiago Dimas ficam sem mandato para a próxima legislatura. Entre obras que mudaram Araguaína, desgastes administrativos e possíveis novas alianças, o futuro político da família ainda reserva capítulos.
A trajetória de Ronaldo Dimas na política tocantinense reúne realizações administrativas, protagonismo institucional e, mais recentemente, resultados eleitorais que contrastam com a força construída ao longo de sua carreira. Ex-deputado federal, ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Tocantins (FIETO) e prefeito de Araguaína por dois mandatos consecutivos, Dimas chega ao fim das eleições de 2026 diante de um cenário desafiador: duas tentativas frustradas de conquistar novos espaços de poder e o filho, Tiago Dimas, fora da próxima legislatura da Câmara dos Deputados.
Não se pode ignorar o legado deixado por Ronaldo Dimas em Araguaína. Durante os oito anos em que administrou o município, entre 2013 e 2020, a cidade passou por importantes intervenções urbanísticas, investimentos em pavimentação, drenagem, mobilidade e reestruturação de espaços públicos. Obras como a Via Lago, o Parque Cimba e melhorias na infraestrutura ajudaram a modificar a paisagem urbana e a projetar uma nova realidade para o município.
Entretanto, a política nem sempre transforma realizações administrativas em vitórias eleitorais. E talvez esteja justamente nessa diferença uma das principais questões que ajudam a compreender a trajetória recente do ex-prefeito.
Reconhecido por um perfil predominantemente técnico e administrativo, Ronaldo Dimas construiu sua imagem pública muito mais associada ao planejamento, à execução de obras e à gestão de resultados do que ao estilo político de maior proximidade popular. Essa característica, valorizada por parte da população, também alimenta o debate sobre os limites de uma liderança sustentada principalmente pelas entregas materiais.
Afinal, transformar fisicamente uma cidade não significa, necessariamente, estabelecer com todos os segmentos da sociedade uma relação política capaz de ultrapassar os limites do mandato.
Outro capítulo que permanece associado à sua administração é a controvérsia envolvendo a atualização dos valores do IPTU. As mudanças provocaram questionamentos e insatisfação entre contribuintes. A cobrança judicial de débitos tributários também passou a integrar o debate público sobre a relação entre o município e as famílias atingidas, embora a execução fiscal seja um instrumento legal de arrecadação e não possa ser atribuída exclusivamente a uma gestão.
A primeira tentativa de Ronaldo Dimas de retornar a um cargo eletivo de maior projeção ocorreu em 2022, quando disputou o Governo do Tocantins contra Wanderlei Barbosa. Na ocasião, terminou em segundo lugar, com 186.361 votos, equivalentes a aproximadamente 22,5% dos votos válidos, enquanto Wanderlei venceu ainda no primeiro turno.
Quatro anos depois, o ex-prefeito voltou às urnas, desta vez buscando uma cadeira no Senado Federal. O resultado novamente não garantiu o mandato. Em Araguaína, entretanto, Dimas manteve uma votação expressiva, demonstrando que sua influência eleitoral permanece significativa no município, embora não tenha alcançado a mesma dimensão no restante do Tocantins.
O cenário também atingiu diretamente seu filho, Tiago Dimas. Eleito deputado federal em 2018, Tiago havia retornado à Câmara dos Deputados após uma decisão judicial que alterou a distribuição de cadeiras e resultou na saída de Lázaro Botelho. Nas eleições de 2026, porém, não conseguiu garantir a reeleição. Assim, pai e filho encerram o pleito sem conquistar mandatos para a próxima legislatura.
Nesse contexto, merece atenção o papel desempenhado pelo prefeito Wagner Rodrigues, sucessor político de Ronaldo Dimas na Prefeitura de Araguaína. Wagner manteve seu apoio ao ex-prefeito, reconhecendo a importância das transformações realizadas no município. Sua administração também apresenta um estilo próprio de relacionamento com a população, marcado por uma comunicação mais próxima e pela presença em agendas comunitárias.
O apoio às candidaturas de Ronaldo e Tiago pode ser interpretado como uma demonstração de continuidade, lealdade e consideração política. Entretanto, também colocou Wagner diante do desafio de defender dois projetos eleitorais que já enfrentavam desgastes e dificuldades para ampliar sua aceitação no cenário estadual. O resultado evidencia que a popularidade de uma liderança não se transfere automaticamente aos candidatos que ela apoia.
A situação da família Dimas permite uma reflexão mais ampla sobre a política tocantinense. Obras, investimentos e resultados administrativos constituem parte importante da avaliação de qualquer gestor, mas a construção de uma trajetória eleitoral duradoura também envolve comunicação, articulação, renovação de alianças e capacidade de compreender as diferentes demandas da sociedade.
O desempenho de Ronaldo Dimas em Araguaína impede uma leitura simplista de rejeição ao seu legado. Ao mesmo tempo, o resultado estadual e a não reeleição de Tiago demonstram os limites encontrados pelo grupo na tentativa de ampliar sua representação política.
Os próximos capítulos dessa trajetória, entretanto, ainda estão por ser escritos.
Nos bastidores, circula a possibilidade de Ronaldo Dimas e seu filho, Tiago Dimas, anunciarem apoio à candidatura de Vicentinho Júnior ao Governo do Tocantins neste segundo turno. Caso se confirme, a movimentação poderá representar um novo posicionamento político da família e abrir espaço para futuras articulações no cenário estadual.
A reportagem do Araguaína Urgente tentou contato com Ronaldo Dimas para esclarecer a possibilidade de uma eventual declaração de apoio, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria. Portanto, a informação permanece sem confirmação oficial.
Ronaldo Dimas continua sendo um personagem relevante da história administrativa e política de Araguaína. Seu legado de obras permanece visível, mas os resultados eleitorais recentes mostram que o reconhecimento pelo passado não garante, por si só, a conquista de novos mandatos.
Por enquanto, resta aguardar os próximos capítulos. Afinal, na política, uma derrota eleitoral nem sempre representa o fim de uma trajetória, mas pode marcar o início de uma nova configuração de forças e alianças.
( Por Rodrigo Magalhães)